Filho do
italiano Orsenigo, Escorial foi o melhor entre tantos animais de exceção
criados pelos irmãos Nelson e Roberto Seabra no Haras Guanabara, em Bananal,
São Paulo. Defensor da famosa blusa verde e preto em listras verticais, montado
pelo mestre Francisco Irigoyen, Escorial faz parte de uma longa lista de
cavalos imortais que até hoje habitam o imaginário dos turfistas da velha
guarda, como Rumor, Radar, Dulce, Lohengrin, Emoción, Canavial e Duplex, entre
tantos outros produzidos pelos campos do Guanabara.
Em Buenos Aires, humilhou os
craques argentinos
Aos três
anos, Escorial impôs-se aos rivais de sua geração - que incluía craques como
Gaudeamus - e ganhou todos os clássicos da chamada "tríplice-coroa"
dos potros, em 1.600, 2.400 e 3.000 metros, incluindo o Derby (GP Cruzeiro do
Sul), no Hipódromo Brasileiro. Não tendo
mais adversários no Brasil, foi levado ao exterior para disputar o GP Carlos
Pellegrini de 1959, em 3.000 metros, grama, a prova máxima do turfe argentino.
Ganhou quando quis e como quis, zombando dos rivais.
Mas não
parou aí. Em 1960, há seis meses afastado das pistas, viajou a Buenos Aires
para, desta vez, correr o GP 25 de Mayo - Sesquicentenário da República
Argentina, à época um acontecimento de gala. A distância diminuíra para 2.400
metros, mas a oposição era formidável e reunia os melhores cavalos do continente.
Diante
dos quase cem mil espectadores que lotaram o hipódromo de San Isidro, Escorial
venceu com firmeza, merecendo afagos no pescoço do campeão Irigoyen. Mais
ainda, porque, em segundo, chegou outro animal, também nascido e criado no
Brasil, o notável Farwell, do Stud Almeida Prado & Assunção. Até Nelson
Rodrigues, entusiasmado com o tamanho da façanha, escreveria, na semana
seguinte, que Escorial havia vencido "não porque fosse bom, o que na
verdade ele é, mas porque é brasileiro. O importante é ser brasileiro."
Animal
castanho, de porte médio, elegante, proporções perfeitas e bela cabeça, com 11
vitórias em seu cartel, ele tinha tudo que se exige de um cavalo: velocidade
para acompanhar o ritmo dos ponteiros; capacidade de encontrar nova marcha
quando exigido pelo jóquei; coração e coragem para sustentar o esforço e lutar
até o disco de chegada.
Levado
para a reprodução na França, embora tenha produzido bons ganhadores, não
repetiu o brilho das pistas. Para muitos, ele foi o melhor cavalo já nascido no
país. Escorial marcou época no turfe e foi o primeiro grande ganhador clássico
a projetar a criação nacional além das fronteiras. Depois dele, e graças a ele,
tudo pareceu possível para o puro-sangue inglês de corrida nascido no Brasil.
Escorial é lembrado até hoje.
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