Quem
visse Farwell caminhando no padoque antes do páreo, com seus 500 quilos,
extremamente calmo, não podia suspeitar estar diante de um dos maiores
fenômenos das pistas de corrida do Brasil em todos os tempos. Mas era só entrar
na raia para se transformar: suas passadas eram largas e vigorosas e parecia
não tocar o chão tal a rapidez com que se movia.
Campeão
imbatível numa época de grandes craques
Durante
toda sua campanha, aqui ou no exterior, seu jóquei, o freio paulista Lodegar
Bueno Gonçalves, recebia apenas uma instrução: largar, tomar a ponta e deixar
correr. Foi desta forma que venceu as 15 provas disputadas no país, entre elas
o GP Derby Sul-americano, 2.400 metros, em Cidade Jardim, batendo a Hyperio; o
Derby Paulista e o GP Brasil, então disputado em 3.000 metros. Invicto,
tríplice-coroado paulista, jamais teve adversário entre nós.
Cavalo
quase negro, nascido em 1956, Farwell era filho do inglês Burpham, um
descendente de Hyperion e Marilu. Criado pelos irmãos Almeida Prado no
tradicional Haras Jahu, São Paulo, cujas cores cinza e verde em listras
horizontais defendeu nas pistas, tornou-se uma lenda entre aqueles que lotavam
os hipódromos para vê-lo atuar. Seus duelos com Escorial e Narvik (então recordista
mundial dos 3.000 metros, grama) no GP Brasil de 1960; com Hyperio; com Major’s
Dilemma, Lohengrin e outros craques inesquecíveis ficarão para sempre na
memória daqueles que viveram esta época de ouro do turfe brasileiro.
Suas duas
únicas derrotas ocorreram no exterior. Em Buenos Aires, foi segundo para
Escorial, no G.P. Internacional 25 de Mayo - Sesquicentenário da República
Argentina, e novamente segundo para Atlas, no GP Internacional Carlos
Pellegrini, ambos disputados em 1960. Na primeira derrota, é sabido que teve
uma cólica na semana da corrida e só correu por insistência de seus
proprietários. Na segunda, bateu-se numa disputa desde a largada, com os dois
animais argentinos destacados para persegui-lo durante o percurso e só foi
perder nos últimos metros para um dos maiores cavalos sul-americanos de todos
os tempos, o excepcional Atlas, derrotando, entre outros, o craque Arturo A.
A derrota
para o notável Escorial no 25 de Mayo foi num daqueles páreos inesquecíveis. No
meio da reta, vindo do fundo do lote, Escorial livrou um corpo sobre ele e,
quando Francisco Irigoyen julgou que a prova estava ganha, teve que usar de
todo seu vigor e maestria para conservar a vantagem até o disco, pois,
valendo-se de seu enorme coração, Farwell ameaçou voltar até o último instante.
Depois do páreo, exausto, Irigoyen confidenciou que poucas vezes na vida teve
que se esforçar para vencer uma corrida.
Levado
para a reprodução, Farwell infelizmente se revelou estéril. Mas suas atuações
nos anos de 1959 e 1960, em pistas brasileiras e argentinas, marcaram época e o
transformaram num mito no continente.
Os
turfistas com mais de 50 anos, falam sobre ele com incontida emoção. Lendas
foram criadas a respeito de Farwell, algumas chegando a dizer que seus
criadores o escondiam, quando compradores visitavam o haras, mas ninguém
confirma isso.



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