O turfe pode ser definido por corridas de cavalos, conduzidos por um jóquei, quase sempre realizadas em pistas ovais, de grama ou areia. Cada cavalo corre em uma raia. Nos hipódromos (locais de realização das corridas) existem guichês responsáveis por coletar apostas, que podem ser feitas tendo em vista uma série de combinações de resultados possíveis, concedendo também premiações diferenciadas para os acertadores. Na Inglaterra e na Austrália, atribui-se freqüentemente a origem do esporte moderno à expansão do turfe no final do século XVIII e início do XIX, quando o sistema de apostas em corridas de cavalos passou a incluir competições de cricket, box, football etc. No Brasil, as primeiras corridas de cavalos foram organizadas na década de 1810, na cidade do Rio de Janeiro, nas areias da Praia de Botafogo. Os ingleses, que vieram para o Brasil juntamente com a Corte Portuguesa (1808), trouxeram o hábito de sua terra natal, tentando implementá-lo em uma cidade bastante carente de atividades de diversão. Anteriormente outros divertimentos com cavalos já eram realizados, como as cavalhadas, o que facilitou essa entrada inicial.
1814: Em 25 de maio deste ano a Gazeta de Notícias, jornal do Rio de Janeiro-RJ, publica uma nota sobre as corridas de cavalos na Praia de Botafogo. Este é o mais antigo registro sobre tal atividade. O evento já contava com a presença da família real e das elites econômicas da cidade.
1825: A partir deste ano as corridas tornam-se mais populares e organizadas na cidade do Rio de Janeiro, começando a surgir, embrionariamente, um movimento para institucionalização da prática. Os argumentos utilizados eram o desenvolvimento de uma forma adequada de diversão para a cidade e o aprimoramento da raça de cavalos brasileiros. Os ingleses continuam bastante envolvidos com as corridas de cavalos.
1847: Publicação de um manifesto convocando esforços para a criação de um turfe nacional de acordo com os modelos ingleses.
1849: Depois de muitas discussões, é fundado o Club de Corridas no Rio de Janeiro, primeiro clube estritamente esportivo criado na cidade e provavelmente um dos primeiros do Brasil. O turfe, por estar adequado as dimensões sócio-econômicas-culturais da época, foi o primeiro esporte, em seu sentido moderno, a efetivamente se organizar no Brasil. As elites econômicas ligadas a agricultura cafeeira de exportação estavam envolvidas com o clube. O hipódromo, então denominado “Prado Fluminense” seria inicialmente instalado próximo à rua Paissandú, bairro do Flamengo, mas acabou sendo construído no bairro de São Francisco Xavier (próximo ao Estádio do Maracanã dos dias presentes), perto do local de moradia da família real e das elites naquele momento (bairro de São Cristóvão). A prática seguia completamente o modelo inglês, em todos os sentidos possíveis.
1851: O major João Guilherme Suckow, importante nome no desenvolvimento do turfe nacional, arrenda e reforma o Prado Fluminense e realiza novas corridas de cavalo. O primeiro evento contou com um excelente público de aproximadamente 4000 pessoas. As corridas logram sucesso provisório, movimentando a cidade, mas com o decorrer do tempo a iniciativa volta a fracassar.
1854: Suckow, com dificuldades financeiras, tenta manter a chama do turfe viva, amplia o número de sócios e cria o primeiro Jockey Club. Contudo, novo fracasso é observado e durante muitos anos poucas foram as iniciativas.
1868: Um passo fundamental para a consolidação do turfe no Rio de Janeiro ocorre neste ano, no dia 16 de julho: um grupo de fazendeiros e membros da nobreza fundam de novo outro clube chamado Jockey Club, responsável por futuros grandes progressos e pelo estabelecimento definitivo das corridas de cavalos naquela cidade. Tal clube se instalou das mesmas dependências do Prado Fluminense. O clube obteve grande sucesso, movimentando a população de todos os extratos sociais. Eram comuns os vários mecanismos de identificação social diferenciada, construindo-se ao redor da prática simultaneamente uma representação de prática popular (já que todas as camadas sociais estavam presentes às realizações), mas também elemento de status e distinção (já se ocupava espaços diferentes em função do poderio econômico). Auxílios financeiros governamentais começam a ser solicitados e tornam-se freqüentes. Em termos de sócios fundadores do Jockey Club, os nomes apontados como aficionados ao sport, à época, eram o Conde de Herzberg, o Major Suckow, Costa Ferraz e Henrique Possolo.
1872: As apostas, antes informais, começam a ser controladas pelo Jockey Club, que criou a casa de poules. Se isso de alguma forma aumentou a capacidade econômica de gerenciar e manter as corridas, também desencadeou muitas confusões de diversas naturezas. Muitas foram as ocorrências policiais ligadas a problemas com as apostas, e não eram incomuns que os hipódromos fossem destruídos pelo público. Observa-se o acentuar do caráter de jogo de azar, da prática.
1873: Em Curitiba-PR, funda-se o “Club de Corridas”, posteriormente chamado “Club de Corridas Paranaense” e “Jockey Club Paranaense” a partir de 1899. O atual Hipódromo do Tarumã foi erguido por obra de belíssima arquitetura e inaugurado em dezembro de 1955.
1875: Criação do Jockey Clube de São Paulo contando com 73. A primeira corrida aconteceu em 29 de outubro de 1876, no Hipódromo da Moóca, na rua Bresser. Somente mais tarde, em 25 de janeiro de 1941, foi inaugurado o atual Hipódromo da Cidade Jardim.
Década de
1880: Fase áurea do turfe no Rio de Janeiro. Muitos clubes são criados (Club de Corridas de Vila Isabel, Derby Fluminese, Prado Guarany, entre outros) e a prática cai definitivamente no gosto da população. Chegou-se a ter 5 clubes de corridas e hipódromos funcionando simultaneamente na cidade. Estima-se que cerca de 25% da população apostava nas corridas de cavalos. No final da década é criado o Derby Club, no qual estavam envolvidos membros de uma elite urbana pré-industrial que já se organizava na cidade, modificando alguns sentidos da prática. Cria-se um certo conflito no âmbito das elites envolvidas com o turfe. A imprensa envolve-se definitivamente com as corridas de cavalo, não só nos jornais diários (cada vez mais presentes), como também são lançadas revistas específicas para o esporte. O turfe desenvolve-se em outros municípios do Estado do Rio de Janeiro (como Resende, Petrópolis e Campos) e em outros estados, que de alguma forma contavam com auxílio e/ou estímulo dos clubes do Rio de Janeiro.
1889: Cria-se o “Hippodromo Nacional” também no RJ, sob forma de Sociedade Anônima. A inauguração do prado ocorreu no ano seguinte com a presença do então Presidente da Republica, Marechal Deodoro da Fonseca, e 12 mil espectadores, número expressivo para a época. Afonso Celso foi o primeiro presidente. A empresa foi liquidada em 1898.
1890: Estabelecimento do “Turf Club” também como Sociedade Anônoma com sede no RJ, confirmando a alternativa de atividade empresarial no turfe brasileiro, em lugar de associativista. A sociedade foi liquidada em 1899. Neste estágio, aumentam os conflitos em função dos resultados das corridas e da ação dos chamados bookmakers, agenciadores de apostas. O pronunciado caráter de jogo de azar e uma nova organização sócio-econômica-cultural da cidade começam a interferir no turfe que, paulatinamente, entra em declínio. O remo começa a substituir o turfe no gosto da população carioca.
1899: Fusão dos quatro prados de Porto Alegre–RS que existiram na última década do século XIX, resultando na fundação do Derby Club do Rio Grande Sul. Este se transformou em Associação Protetora do Turfe em 1907, e finalmente Jockey Club do RS em 1944. Esta instituição passou por vários períodos decadência e ressurgimentos durante todo o século XX. 1906 – 1939: O início das atividades do “Prado Mineiro” em Belo Horizonte – MG, em 1906 teve pausas e recomeços sucessivos até 1939, quando foi criado o “Derby Club de Belo Horizonte”. Este assumiu a denominação de Jockey Clube de Belo Horizonte – JCBH em 1956, e de Jockey Clube de Minas Gerais em 1957.
1910: Fundação da revista “O Jockey” por José Briani, integralmente dedicada ao turfe no Rio de Janeiro. Este veículo encerrou suas atividades em 1990.
Décadas 1890 – 1930: Neste período houve sucessivas recuperações das atividades de turfe no RJ, caracterizando-o mais como um meio de ascensão social ao lado do apelo popular para as apostas em dinheiro. Também foi o período do domínio do Jockey Club e do Derby Club no turfe brasileiro até a fusão de ambos com a criação do Jockey Club Brasileiro em 1932, promovida por Lineo de Paula Machado. Em 1922, foram iniciadas as obras do Hipódromo da Gávea (Lagoa Rodrigo de Freitas – RJ) por iniciativa do Jockey Club. Em 1926 foram inauguradas estas instalações, então consideradas uma das principais do turfe em escala mundial. Em 1932, a fusão Jockey – Derby deu surgimento ao “Hipódromo Brasileiro” como nova denominação para o prado da Gávea.
Décadas 1940 – 2000: Período em que o turfe, no âmbito internacional, se afasta do nexo do esporte, mantendo apenas suas relações com a melhoria das raças eqüinas e o sentido de apostas nas corridas de cavalos. Como tal, este sistema de financiamento do turfe decresceu em muitos países pela competição com outras formas de apostas. No Brasil repetiu-se este fenômeno mas houve um crescimento e interiorização dos hipódromos, totalizando-se 40 em 2000. Contudo, os Jockey Clubes de RJ, SP, PR e RS se mantiveram na liderança embora instáveis em sua administração. Na década de 1980, o Governo Federal intervem no setor por meio da Lei nº 7.291, de 19 de dezembro de 1984, com a finalidade de “orientar e acompanhar a ação governamental no que se refere ao fomento e desenvolvimento da equideocultura e fiscalização das entidades ligadas às atividades turfísticas”. Como conseqüência, foi criado o Departamento de Fomento e Fiscalização da Produção Animal–DFPA, no âmbito do Ministério da Agricultura.
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